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psicologa em indaiatuba

Como a idolatria por qualquer figura pode arruinar a vida de uma mulher - A importância de pensar por si.

Hoje vou mostrar por que a idolatria por qualquer figura pode arruinar uma mulher.

Pense que a forma como nos comportamos no mundo tem relação direta com a cultura na qual estamos inseridas. Por isso, a era em que vivemos e as conquistas ainda não alcançadas podem influenciar o modo como pensamos. Vou começar com um exemplo para ilustrar.

Aristóteles chegou a afirmar que faltava algo às mulheres — que elas seriam "homens incompletos". Segundo ele, na reprodução as mulheres seriam passivas e receptoras, enquanto os homens seriam ativos e provedores, e as crianças herdariam apenas as características masculinas (Gaarder, 2012, p. 133).
Essa opinião enviesada de Aristóteles sobre o feminino foi particularmente danosa, pois foi ela — e não a de Platão — que prevaleceu durante a Idade Média. Assim, a igreja herdou uma visão das mulheres que, na verdade, não tem correspondência alguma na Bíblia (Gaarder, 2012, p. 133).

Trouxe esse exemplo para que possamos observar juntas como uma figura ilustre, de extrema importância para o pensamento contemporâneo, também tem suas falhas. Pode até parecer presunçoso da minha parte afirmar que Aristóteles errou, mas quem conhece a literatura sabe que as mulheres nunca estiveram incluídas na Polis (do grego pólis, cidade-Estado política e autônomo). Por isso, apesar de suas inúmeras contribuições, esse autor infelizmente não tinha uma visão inclusiva das mulheres.

Mas nem sempre foi assim. E embora a época possa influenciar o pensamento e o comportamento, nem todos se deixam levar. Alguns pensam por si mesmos. Aristóteles era discípulo de Platão, e Platão tinha uma visão bem diferente sobre as mulheres. Veja um trecho que ilustra bem essa posição:

Platão afirmava que as mulheres seriam tão capazes de liderar o Estado quanto os homens, pois bastaria recorrer à força da razão, e não à força física. Ele defendia que as mulheres possuem exatamente a mesma razão que os homens, sendo necessário apenas que recebam a mesma educação e sejam dispensadas dos cuidados com os filhos e dos afazeres domésticos (Gaarder, 2012, p. 108).
Platão dizia que um Estado que não educa e não promove suas mulheres é como um homem que exercita apenas o braço direito. De modo geral, podemos dizer que ele tinha uma visão positiva das mulheres — sobretudo se levarmos em conta a época em que viveu. No diálogo O Banquete, é uma mulher, Diotima, quem proporciona a Sócrates seus primeiros insights filosóficos (Gaarder, 2012, p. 108).

Trouxe os dois pensadores para ilustrar algo importante sobre a contemporaneidade: não importa a hierarquia ou o lugar ocupado. Padre, pastor, político, professor, todos erram. Entregar a própria vida sem questionar, sem refletir se aquilo faz sentido para seus valores e sua existência, é entregar sua vida nas mãos de alguém que.

E isso traz um certo ganho: não precisar pensar por si mesma, fazer experimentos na própria vida e entender a aplicabilidade do que se escolhe pode parecer mais fácil. Mas o preço é alto.

É precisamente nesse ponto que reside o risco da idolatria. Ao transformarmos qualquer figura, filósofo, líder religioso, autoridade intelectual ou qualquer outra figura em verdade inquestionável, renunciamos àquilo que nos é mais essencial: a capacidade de discernimento crítico.

Aristóteles e Platão ilustram essa mesma lição por caminhos opostos: o primeiro, pelo equívoco que perpetuou séculos de exclusão; o segundo, pelo acerto que poucos, em sua época, tiveram a coragem de sustentar. Nenhum dos dois deveria ser tomado como autoridade inquestionável. Ambos devem ser lidos, contextualizados e submetidos à análise crítica.

Pensar por si mesma, enquanto mulher, não constitui um gesto de rebeldia gratuita, mas um exercício de responsabilidade intelectual sobre a própria existência. Isso porque, sempre que entregamos nosso julgamento a uma autoridade sem o devido questionamento, corremos o risco de reproduzir, ainda que involuntariamente, os mesmos erros que a história já demonstrou, agora, porém, sob nossa própria responsabilidade.

Referencia: GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: Romance da história da filosofia / Jostein Gaarder; tradução do norueguês Leonardo Pinto Silva - 1 ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.