
Hoje vou mostrar por que a idolatria por qualquer figura pode arruinar uma mulher.
Pense que a forma como nos comportamos no mundo tem relação direta com a cultura na qual estamos inseridas. Por isso, a era em que vivemos e as conquistas ainda não alcançadas podem influenciar o modo como pensamos. Vou começar com um exemplo para ilustrar.
Trouxe esse exemplo para que possamos observar juntas como uma figura ilustre, de extrema importância para o pensamento contemporâneo, também tem suas falhas. Pode até parecer presunçoso da minha parte afirmar que Aristóteles errou, mas quem conhece a literatura sabe que as mulheres nunca estiveram incluídas na Polis (do grego pólis, cidade-Estado política e autônomo). Por isso, apesar de suas inúmeras contribuições, esse autor infelizmente não tinha uma visão inclusiva das mulheres.
Mas nem sempre foi assim. E embora a época possa influenciar o pensamento e o comportamento, nem todos se deixam levar. Alguns pensam por si mesmos. Aristóteles era discípulo de Platão, e Platão tinha uma visão bem diferente sobre as mulheres. Veja um trecho que ilustra bem essa posição:
Trouxe os dois pensadores para ilustrar algo importante sobre a contemporaneidade: não importa a hierarquia ou o lugar ocupado. Padre, pastor, político, professor, todos erram. Entregar a própria vida sem questionar, sem refletir se aquilo faz sentido para seus valores e sua existência, é entregar sua vida nas mãos de alguém que.
E isso traz um certo ganho: não precisar pensar por si mesma, fazer experimentos na própria vida e entender a aplicabilidade do que se escolhe pode parecer mais fácil. Mas o preço é alto.
É precisamente nesse ponto que reside o risco da idolatria. Ao transformarmos qualquer figura, filósofo, líder religioso, autoridade intelectual ou qualquer outra figura em verdade inquestionável, renunciamos àquilo que nos é mais essencial: a capacidade de discernimento crítico.
Aristóteles e Platão ilustram essa mesma lição por caminhos opostos: o primeiro, pelo equívoco que perpetuou séculos de exclusão; o segundo, pelo acerto que poucos, em sua época, tiveram a coragem de sustentar. Nenhum dos dois deveria ser tomado como autoridade inquestionável. Ambos devem ser lidos, contextualizados e submetidos à análise crítica.
Pensar por si mesma, enquanto mulher, não constitui um gesto de rebeldia gratuita, mas um exercício de responsabilidade intelectual sobre a própria existência. Isso porque, sempre que entregamos nosso julgamento a uma autoridade sem o devido questionamento, corremos o risco de reproduzir, ainda que involuntariamente, os mesmos erros que a história já demonstrou, agora, porém, sob nossa própria responsabilidade.
Referencia: GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: Romance da história da filosofia / Jostein Gaarder; tradução do norueguês Leonardo Pinto Silva - 1 ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.