
Uma perspectiva ética - filosófica sobre a traição.
Todo mundo já ouviu um:
Ah, o João traiu a Maria, mas também né! Ela só se dedica ao trabalho, se largou depois de ter filho ou só cuida da mãe depois que ficou doente, ela não cuida mais da casa! etc, etc, etc.
Partindo do pressuposto de um relacionamento monogâmico, ou seja, quando uma pessoa mantém vínculo afetivo, sexual ou conjugal apenas com um parceiro por vez e de um relacionamento heteroafetivo, ou seja, quando uma pessoa se relaciona com outra do sexo oposto, hoje, vamos discorrer sobre o tema da traição sobre a perspectiva da mulher!
Falas como essas acima são enraizadas na nossa sociedade e não são usadas somente por homens. Mas também por mulheres. Isso por conta do machismo estrutural da nossa sociedade.
Machismo estrutural: É quando um conjunto de normas, valores, instituições e práticas sociais privilegiam homens e sustentam desigualdade de gênero.
E porque estrutural? Porque está incorporado em estruturas sociais, culturais e institucionais, mesmo sem intenção consciente do indivíduo.
Partindo desse pressuposto, há nessa prerrogativa de que a culpa do ato da traição foi alguma “falta” por parte da mulher que justificaria o ato do homem procurar fora de casa aquilo que não encontrou dentro.
Retirando assim, toda a responsabilidade do parceiro, que é automaticamente transferida para a insuficiência em algum grau da mulher.
Precisei trazer a filosofia e a etimologia para esse texto para que pudéssemos nos aprofundar nas raízes mais densas desse comportamento. E para isso precisamos falar sobre ética.
Etimologia da palavra:
Éthos - significa “caráter”, "modo de ser”, “disposição moral”, “hábito”.
Logo, pensando numa visão Aristotélica, a infidelidade não resulta da “falta” de alguém, mas sim, de uma falha ética daquele que escolhe trair. A pessoa infiel age por deficiência de virtude e transferir a culpa no caso aqui que estamos abordando para a mulher, seria uma distorção moral.
Mas, infelizmente muitas mulheres ainda se sentem culpadas e se perguntam frequentemente onde erraram, principalmente quando consideramos como o machismo estrutural está enraizado em nossa sociedade e também nas próprias mulheres. Onde muitas vezes, uma corrobora com a culpabilização da outra instigando que a mulher “falhou” em algo.
Escolhi Aristóteles para nosso tema, pois suas reflexões são poderosíssimas quando pensamos em desmontar o machismo que habita em muitas pessoas. Através de seus pensamentos, podemos refletir como mecanismos culturais de culpabilização feminina desmontam crenças de que desejo não elimina responsabilidade, circunstâncias não anulam escolhas e caráter não define ação ética.
Logo, a ideia de que a mulher é culpada pela traição do homem, é mais uma manifestação de machismo e também da falta de acesso da população a conceitos importantes sobre ética e moral. Culpar a mulher pela infidelidade do homem representa uma distorção que historicamente desloca a responsabilidade masculina para o feminino. Essa lógica perpetua mecanismos de culpabilização da mulher e reforça desigualdades de gênero, naturalizando a ausência de responsabilidade ética masculina.
Então refletir sobre a infidelidade a partir de Aristóteles permite desconstruir narrativas culturais injustas reafirmando que desejo, contexto ou insatisfação não anulam a autonomia ética de quem escolhe trair.
Espero que você tenha gostado desse texto. E se você é mulher e precisa se reencontrar após uma traição, a psicoterapia é o espaço onde você poderá ser escutada, respeitada em suas escolhas e sem julgamento se reencontrar após esse acontecido.
Nos vemos em breve!
Referências:
ATARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1991.