
No texto de hoje vamos conversar sobre um livro que li no último feriado. O poder do Mito de Joseph Campbell. Acredite. Muito do que nós mulheres vivemos, acreditamos e reproduzimos hoje está diretamente ligado à construção histórica, mitológica e religiosa. E é sobre isso que vamos discorrer nesse artigo!
Em diversas culturas antigas, o feminino era sagrado. Deusas representavam aspectos fundamentais da existência: vida, morte, fertilidade e mistério. Lembro-me quando fui ao Museo Arqueológico Rafael Larco Herrera em Lima, no Peru, e pude observar a mulher na cultura Inca sendo representada em vasos e pinturas. A imagem feminina transmitia força, centramento, nutrição e ciclo.
E era claro como o feminino era sagrado. Não como um ideal romântico, mas como potência real e concreta. Potência de força por si só e pelo o que era capaz de produzir e reverberar e impactar no mundo.
O corpo da mulher, seus ciclos, sua capacidade de nutrir e transformar, tudo isso era visto como expressão direta do mistério da vida. E como força.
Isso aconteceu em grande parte, porque as narrativas míticas e bíblicas (espaço ocupado em grande parte por figuras masculinas) que chegaram até nós foram majoritariamente registradas e transmitidas por homens.
Com isso, consolidou-se uma visão masculina sobre o feminino. Muitas vezes associando a mulher à tentação, ao desviou ou ao obstáculo para a elevação espiritual.
Quando pensamos na Virgem Maria, por exemplo, a imagem mais difundida é de uma mulher silenciosa, contida, olhar baixo, marcada pelo sofrimento, aquela que aguenta todos os percalços. Uma figura que suporta tudo, sem questionar, sem expandir, sem ocupar espaço.
Esse modelo não ficou restrito ao campo simbólico. Ele se traduz, hoje, no comportamento de muitas mulheres que observo no consultório, Mulheres que acreditam que precisam suportar tudo com resiliência, manter controle emocional constante e evitar a expressão de sentimentos intensos.
Com o tempo, especialmente com a ascensão de estruturas patriarcais, essas figuras das deusas femininas foram sendo diminuídas, demonizadas ou esquecidas.
As chamadas "bruxas”, perseguidas e mortas, eram, em muitos casos, mulheres conectadas aos ciclos do corpo e da natureza. Mulheres que não se encaixavam no modelo imposto. Isso, por si só, já era considerado perigoso.
A mulher tinha um papel claro e definido. Casar, gerar, cuidar, silenciar e obedecer.
Será que isso que sentimos como natural, a forma que nos comportamos, as escolhas que fazemos, as formas de pensamentos, as opiniões, o que aceitamos, o que reprimimos ou o que desejamos realmente nasceu com a gente?
Ao longo da história o feminino foi sendo moldado por narrativas poderosas: mitos, religiões e estruturas sociais que definiram, muitas vezes de forma silenciosa, qual o lugar da mulher no mundo.
O problema é que não fomos ensinadas a fazer o caminho de volta. O caminho para dentro. E mais, sustentar a própria percepção.
Pelo contrário: aprendemos que o externo valida, orienta e define. Que o outro sabe mais, que existe um jeito certo e que esse jeito já está dado.
O caminho de volta exige questionamento e consciência. É nesse ponto que a terapia se torna um espaço fundamental.
Um espaço seguro para investigar padrões, reconhecer o que é herdado e o que é autêntico e começar a reconstruir a própria voz.
Se você se percebe nesses padrões, dificuldade de se posicionar, culpa ao ocupar espaço, desconexão interna, voltar para quem você é, é o primeiro passo.
Te aguardo para construirmos isso juntas com presença, cuidado, atenção e principalmente estrutura.
Referências:
Texto autoral inspirado no livro:
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena.